Dívidas ocultas: António do Rosário conta tudo sobre perseguição, Nyusi e interesses instalados

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António do Rosário acusa regime de Filipe Nyusi de perseguição política e questiona legitimidade eleitoral em entrevista explosiva ao Canal de Moçambique

O ex-diretor do Sistema Integrado de Segurança do Estado (SISE) de Moçambique, António Carlos do Rosário, concedeu uma extensa entrevista ao Canal na qual defende a sua inocência e acusa o poder de ter orquestrado um processo político para o silenciar. Condenado a 11 anos de prisão condicional num caso que envolveu dívidas ocultas de 2,2 mil milhões de dólares, Rosário garante que foi punido por investigar esquemas de corrupção e ameaçar interesses instalados.

“Fui preso porque toquei em questões sensíveis e ameacei interesses instalados”, afirmou categoricamente o antigo responsável pela Inteligência Económica e Segurança Nacional, rejeitando as acusações de conspiração contra o Estado.

Da reforma do SISE à prisão

António Carlos do Rosário conta que assumiu a direção do SISE em 2014 com a missão de modernizar profundamente o serviço secreto moçambicano. “Iniciei narrativas e prendi externos que podiam acorrentar pessoas às fragilidades da República”, explicou, referindo-se ao seu trabalho na área da Inteligência Económica.

Segundo Rosário, a sua queda começou quando começou a investigar redes de corrupção e fluxos financeiros ilícitos que lesavam o Estado. “Quando um Estado é frágil e tenta crescer, fica em duas zonas: uma invisível e outra explorável. Mexe com dinheiro, porque o capital tem música, e mexe com o poder”, disse.

O antigo diretor rejeita ter conspirado contra o Estado e classifica o processo judicial como uma “narrativa” construída para legitimar a sua perseguição. Entre os alegados conspiradores estariam figuras próximas do poder, como o general Paulino Macaringue e o empresário Priamo Macuácua.

O grupo de WhatsApp e as acusações

Um dos elementos centrais do processo contra Rosário foi a criação de um grupo de WhatsApp com colegas do SISE. “Esse grupo tínhamos nós, mas de onde cada um, por maioria de circunstância, as conversas acabaram acontecendo apenas o que pensou”, explicou Rosário, rejeitando que isso constituísse uma conspiração.

O antigo responsável defende que o verdadeiro problema não foi o grupo de comunicação, mas sim o facto de ter tocado em questões sensíveis relacionadas com a segurança nacional e interesses económicos. “Não basta olhar para o meu caso como um processo legal. É preciso olhar como episódio de um conflito maior, moçambicano, que tem um trauma a levantar-se e a ser puxado para baixo por interesses que exploram as suas fragilidades”, argumentou.

A independência que incomodou

Questionado sobre o que considera ter falhado no processo, Rosário é direto: “Vou para o que falhou foi não separar agendas pessoais de agendas de Estado. Não há independência.”

Para o antigo diretor do SISE, a sua independência face aos poderes instalados foi o grande pecado. “Para mim nada é que há independência. Porque as pessoas é que escolhem. A independência é um mito, é uma história bonita de cinema e reneça e tem muito a ver com afirmação que já tem uma ideia preconcebida da coisa ou das coisas e acaba dando e desconto e na uma ideologia de verdade mas resultar em ideologia sistémica.”

Rosário defende que tentou exercer as suas funções com integridade e com coragem, mas que isso contrariou interesses instalados: “A minha capacidade própria e com coragem acabou por contrarier interesses instalados.”

Filipe Nyusi e a questão da independência

Um dos momentos mais tensos da entrevista surgiu quando o tema Filipe Nyusi foi abordado. Rosário foi questionado sobre se considera o Presidente independente, ao que respondeu de forma evasiva mas significativa.

“Tu também não és independente?”, questionou o jornalista do Canal. “Não. Eu sou presidente da República do Cabo Delgado, do Matias, o que tu queres chocar com essa pergunta não é a agenda minha nem de Moçambique”, respondeu Rosário.

O antigo diretor do SISE foi ainda mais longe ao questionar a legitimidade de Nyusi: “Acha que a Independência da vale, trazemos a nossa incompetência, ou usam valores. Tu me pergunta sobre incompetência? Não, assumo respeito, a integridade controla a Resistência. Quando atinges líderes como o presidente Guebuza, o presidente da República Chissano, tu és Presidente da República porque és e em acidental.”

Cuba e as acusações de ligações externas

Rosário confirmou ter sido acusado de manter ligações com Cuba, mas rejeitou veementemente essas alegações. “Cuba não manda ninguém com junta médica para fora do país. As pessoas que têm dinheiro vão até Cuba para tratamento. Se for nós já não temos dinheiro, mas mandamos pessoas para junta médica para serem tratados lá fora. Não nos faltam quadros. Falta-nos organização e capacidade de gestão. Por que é que nós somos capazes. Isto é o que falta”, afirmou.

Questionado sobre o que considera que é Cuba, Rosário respondeu de forma filosófica: “Quando um Estado é frágil e tenta crescer, ele fica em duas zonas, zonas invisíveis exploráveis e bastante sensíveis. Mexe com dinheiro, porque o capital. O mexe com o poder. O poder não é soma de afluência. Tem dinheiro, tem de recursos e tem aquilo, não, não. O poder tem a capacidade de influenciar outrem para fazer aquilo que, em condições normais, não estavam contentes a fazer.”

A carta sobre fraude eleitoral

Um dos pontos mais explosivos da entrevista foi quando Rosário confirmou ter escrito uma carta sobre alegada fraude eleitoral. “Há uma carta que escrevi à minha filha, de 2023, num contexto das chamadas ‘atividades altamente contestadas, num processo das chamadas ‘atividades altamente politizadas, em que eu estava a enfrentar o regime, e todos concordam que à altura momento eu posso sair deste Mundo para outra e Deus. Mas, mesmo assim, valia a pena, porque não procuro protagonismo. Nunca.”

Esta revelação surge num contexto de profunda contestação eleitoral em Moçambique, com várias vozes a questionarem a legitimidade dos processos eleitorais realizados sob a presidência de Filipe Nyusi.

Críticas ao Presidente Nyusi e comparações com antecessores

António do Rosário não poupou críticas ao actual Presidente da República, estabelecendo comparações desfavoráveis com os seus antecessores. “Esta é uma subpergunta dentro da pergunta a que estou a responder sobre o que falhou com o SIMP. É a continuidade institucional, da visão institucional das coisas. Eu vivi essas coisas por dentro, e eu testemunhava-me e não acreditava”, afirmou.

Sobre as eleições autárquicas, Rosário foi contundente: “As primeiras eleições autárquicas foram em 1998. O Presidente da República era presidente Chissano. E, nessas eleições, alguns municípios caíram nas mãos da oposição. Beira é um dos exemplos que marcou. Não vi nenhuma tendência do presidente Chissano nem dos demais eleições de lutar contra isso. Reconheceram, e avançámos. O mesmo aconteceu com o presidente Guebuza. No caso do presidente Guebuza até foi mais emblemático, porque Quelimane estava com a Frelimo. Houve eleições antecipadas e venceu o homem da oposição. Mas o presidente Guebuza não foi contra esses resultados. Então, o que falhou?”

Esta comparação entre Nyusi e os seus antecessores é particularmente relevante no actual contexto político moçambicano, marcado por alegações de fraude eleitoral e pela forte contestação dos resultados das últimas eleições.

O caso do ministro Nyusi e a Defesa

Rosário também abordou o episódio envolvendo Filipe Nyusi quando este ainda era ministro da Defesa, referindo-se a uma alegada mudança de regras. “Nyusi já não é aquele ministro da Defesa? Eu não acreditava porque, nas reuniões, quando falávamos, continuava oficialmente na reunião a defender o que defendia antes. Agora, o que é que dizia? O que é que acontecia? E como é que as coisas caminharam? De uma condição daquilo que ele dizia antes, eu já não percebi. Na vida tudo acontece como a gente quer e a gente tem a capacidade de aceitar as contrariedades, já não me impede da visão de onde via.”

Esta declaração sugere que Rosário testemunhou uma mudança no comportamento de Nyusi quando este transitou de ministro da Defesa para Presidente da República, alegadamente abandonando posições anteriormente defendidas.

A questão da fragilidade do Estado

Um tema recorrente ao longo da entrevista foi a questão da fragilidade institucional do Estado moçambicano. Rosário defende que Moçambique vive numa situação de dependência e vulnerabilidade face a interesses externos.

“As fragilidades convém. Não é tudo é grupos. Porque já são transamos. Agora são redes, são ‘networks’. O Matias está ligado a alguém nos Estados Unidos, que está ligado a alguém na Europa, que tem relações também na Rússia e tem ligações na China. Hoje já só não se olha para países como espaços eremíticos. São redes”, explicou.

Para Rosário, estas redes internacionais aproveitam-se das fragilidades de Moçambique para explorar o país, particularmente através de esquemas relacionados com recursos naturais e interesses geo-económicos. “Essas redes aproveitam muitas vezes as fragilidades dos países. Fragilidades não acreditam com interesses geo-económicos. Essas interesses mostram quando os Estados costeiros são porosos, dependentes, previsíveis e admissíveis à distância.”

O financiamento da Educação e Saúde

Numa crítica velada à gestão dos recursos do Estado, Rosário questionou as prioridades do governo: “Para financiar o desenvolvimento de Moçambique, para financiar a Educação, para financiar a Saúde. Uma das coisas que eu, enquanto estiver vivo e não vívo resolvido, é continuarmos a acreditar que Moçambique tem capacidade na área da Educação e da Saúde, particularmente da Saúde, para fazer aquilo que Cuba faz.”

A questão da corrupção e do Tribunal Judicial

Rosário foi particularmente crítico em relação ao papel do sistema judicial no seu caso. “O tribunal julga-me e estranhamente condena. Curioso: estranhamente de corrupção, brava-mante de corrupção porque não queriam.”

O antigo diretor do SISE sugere que houve pressões políticas sobre o tribunal para garantir a sua condenação, transformando o que deveria ser um processo judicial independente numa ferramenta de perseguição política.

Sobre a acusação de ter tido um “caso” com alguém ligado ao financiamento do SIMP, Rosário foi incisivo: “Rejeito nove a acusação de ter tido um ‘caso’ com alguém defendido e o aninhe moral, que manda que um homem não coisa. Tem ética, moral e institucional.”

Os remédios entre Filipe Nyusi e Manuel Chang

Num dos episódios mais surpreendentes da entrevista, Rosário revelou detalhes sobre alegadas conversas entre Filipe Nyusi, quando era ministro da Defesa, e Manuel Chang, então ministro das Finanças.

“Vou contar-te um episódio. Num outro momento antes daquele então de financiamento no SIMP foi aprovado um Decreto pelo ministro do Interior da Defesa Nyusi na altura, que são de agosto de 2013, penso eu, do ministro das Finanças. O ministro Chang, como ministro de Finanças, não concordam com isso. Houve um episódio de discussão. Reunião de um mandatário de um sufrágio, de Presidente da República, numa do Nyusi e uma do ministro de Defesa, onde o Changana este assunto. Esteve lá o ministro das Finanças. Não estava lá o que ele disse, mas o de sabe por reunião de Presidente da República. Como se diz pra jornalistas sou me quando do diz que não sabe que me faz reunião pra ministro Estado”, contou.

Esta revelação sugere tensões e divergências no seio do executivo moçambicano sobre questões relacionadas com o financiamento da defesa e segurança.

Nyusi e a questão presidencial

Rosário foi particularmente duro ao questionar as qualificações e a legitimidade de Filipe Nyusi como Presidente. “Alguns terão que me dizer se sou capaz de defender o Presidente da República? É defendível? No caso o Nyusi, no caso de um consenso. Como que teve? Foi uma escolha que quando estava na reunião a defender o que defendia antes. Entrelham a Frelimo quando era ministro. Foi isso o que quando estava a enfrentar.”

O antigo diretor do SISE também levantou questões sobre a forma como Nyusi chegou ao poder: “Como que o Nyusi mudanram-se de reis, mudam-se as vontades. O que faria sentido num contexto antes de Janeiro de 2015 deixou de ser um interesse depois de 2015. Mas, quando era o presidente da República, porque tudo continuou.”

A Comissão Parlamentar e a PGR

Rosário abordou ainda o papel da Comissão Parlamentar de Inquérito e da Procuradoria-Geral da República (PGR) no processo. “A Comissão Parlamentar de Inquérito fez formada de trabalhos que devia e fez um bom trabalho dos políticos. No primeiro não foram feitos reuniões. Mas, no fundo, já é razoável que entre políticos. Onde está a falha da Comissão Parlamentar de Inquérito? Onde está?”

O antigo diretor considera que, apesar de ter havido uma investigação parlamentar, os resultados não foram devidamente utilizados para fazer justiça, mas sim para servir interesses políticos específicos.

A carta à filha e o confronto com o regime

Rosário confirmou ter escrito uma carta à sua filha em 2023, num contexto de atividades “altamente contestadas” e “altamente politizadas”, em que enfrentava o regime. “Estava a enfrentar o regime, e todos concordam que à altura momento eu posso sair deste Mundo para outra e Deus. Mas, mesmo assim, valia a pena, porque não procuro protagonismo. Nunca.”

Esta carta, segundo Rosário, fazia referência a uma alegada traição do coordenador do Comando Operativo, numa possível alusão a esquemas de corrupção ou abuso de poder dentro das instituições de segurança.

O Comando operativo e o SISE

Sobre a estrutura do Comando Operativo, Rosário explicou: “No Comando Operativo, o ministro da Defesa é o chefe, o ministro do Interior e o director-geral do SISE são integrantes, e cada um destes são económicos coordenado por um quadro. É assim que eu acompanho e o director-geral do SISE.”

Esta estrutura, segundo Rosário, deveria garantir coordenação entre diferentes instituições de segurança, mas alegadamente foi comprometida por interesses políticos e económicos.

As redes e a fragilidade institucional

Rosário insistiu na ideia de que Moçambique está preso numa rede de dependências e fragilidades: “As fragilidades convém. Não é tudo é grupos. Porque já não transamos. Agora são redes, são ‘networks’.”

O antigo diretor do SISE argumenta que estas redes, que se estendem dos Estados Unidos à Europa, Rússia e China, exploram as vulnerabilidades de Moçambique para seus próprios interesses, deixando o país numa posição de permanente fragilidade.

Questões sobre Segurança Nacional

Quando questionado sobre os problemas de Segurança Nacional que tentou resolver, Rosário foi claro: “Eu fui de ano explicar a coisa que tinha o que conta a UEM, tente pela Universidade, pelo motivo de diploma. E porque?”

O antigo responsável sugere que tentou implementar reformas profundas no sector da segurança, incluindo a modernização da formação e a profissionalização dos quadros, mas encontrou resistência dos interesses instalados.

A questão dos administradores e os crimes

Sobre alegações de que administradores públicos estariam envolvidos em esquemas criminosos, Rosário comentou: “Os administradores públicos estariam crimes problemáticos!”

Esta declaração sugere que Rosário, no exercício das suas funções, terá identificado situações de corrupção envolvendo altos funcionários do Estado.

António Carlos do Rosário terminou a entrevista mantendo a sua posição de inocência e reforçando a ideia de que foi vítima de perseguição política por ter tocado em questões demasiado sensíveis para os interesses instalados.

“Estou a viver como se a gente quer e a gente tem a capacidade de aceitar as contrariedades, já não me impede da visão de onde via”, afirmou, numa declaração que resume a sua resiliência face às adversidades.

A entrevista de António do Rosário ao Canal de Moçambique levanta questões profundas sobre a natureza do poder em Moçambique, a independência das instituições, a legitimidade dos processos eleitorais e o funcionamento das redes de corrupção que, segundo o antigo diretor do SISE, continuam a explorar as fragilidades do Estado moçambicano.

Num momento em que Moçambique enfrenta profundas contestações políticas e eleitorais desde outubro 2024, as declarações de Rosário surgem como mais uma voz crítica de um sistema que, nas suas palavras, pune aqueles que ousam desafiar os interesses instalados.

 Imagem: DR

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