António Carlos do Rosário, ex-líder dos serviços de informações secretos moçambicanos, faz revelações explosivas sobre corrupção, tráficos ilícitos e manipulação política no país.
António Carlos do Rosário, antigo director do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SISE) de Moçambique, concedeu uma extensa entrevista ao jornal Canal de Moçambique onde faz acusações graves sobre o funcionamento do Estado moçambicano e revela os bastidores da sua prisão.
Detido há 12 meses antes de ser formalmente acusado, Rosário garante ter sido preso “porque toquei em questões sensíveis e ameacei interesses instalados”. O antigo responsável pelos serviços secretos moçambicanos não poupa críticas ao actual presidente, Filipe Nyusi, e ao sistema político que diz servir interesses económicos obscuros.
A tese da sabotagem em Cabo Delgado
Uma das revelações mais polémicas da entrevista prende-se com a insurreição em Cabo Delgado, província do norte de Moçambique assolada por ataques de grupos armados. Segundo Rosário, “a guerra em Cabo Delgado é parte da sabotagem feita ao SIMP” – referindo-se ao Sistema Integrado de Monitoria e Protecção costeira que coordenava.
O antigo director dos serviços secretos explica que a estratégia de segurança assente em três pilares – Inteligência preventiva prolixa, imigração controlada e dados cruzados sobre movimentações sociais e de cidadãos estrangeiros – foi deliberadamente minada. “Quando detectávamos imigração em massa, movimentações anómalas e padrões de risco, aumentávamos a nossa capacidade, recrutando sangue novo na Polícia, intensificando as investigações e cruzando dados com os nossos parceiros antes de se manifestar. Nós estávamos a segui-los”, afirma.
As dívidas ocultas e os 2,2 mil milhões de dólares
Rosário aborda também o escândalo das “dívidas ocultas”, o maior caso de corrupção da história recente de Moçambique, que envolveu cerca de 2,2 mil milhões de dólares alegadamente destinados à compra de equipamento para defesa marítima. O antigo responsável do SISE nega qualquer envolvimento e acusa o actual Ministério Público de ter emboscado 35 milhões de dólares do projecto.
“Aqui também me argumentam economicamente. Quando fala de um financiamento de 2,2 biliões de dólares foi exagerado para o que foi adquirido. Como você se defende?”, questiona o entrevistador. Rosário responde apontando para problemas sistémicos de diligência por parte dos bancos que fizeram os empréstimos e para a complexidade das narrativas que foram construídas, envolvendo múltiplos actores e interesses.
Redes de poder e fragilidade institucional
O antigo director dos serviços secretos traça um retrato sombrio das instituições moçambicanas, afirmando que servem interesses instalados em vez do povo. Rosário menciona ligações a redes internacionais de criminalidade organizada, incluindo conexões na China, Rússia e Europa.
“As fragilidades convém. Não falo de grupos, porque já saímos disso. Agora são redes”, afirma, referindo-se a estruturas que atravessam o Estado e ligam política, negócios e crime. Menciona especificamente o Máfia está ligado a um “New Man” e a “Cabo Delgado”, sugerindo ligações entre grupos criminosos e a situação de conflito no norte do país.
Relações com presidentes e mudanças de regime
Rosário serviu sob três presidentes moçambicanos – Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi – e descreve diferentes dinâmicas de poder em cada administração. Sobre Nyusi, é particularmente crítico, sugerindo que o actual presidente está rodeado de assessores que o manipulam e que não toma decisões de forma independente.
O antigo espião conta que a sua carta de demissão, entregue em 2023, foi altamente contestada num processo político que descreve como “dívidas ocultas”, sugerindo que a sua saída foi orquestrada porque se tornou inconveniente para certos interesses.
Acusações de manipulação judicial
Rosário acusa ainda o processo judicial contra si de ser uma “Kroll” – referência à empresa de consultoria envolvida em investigações sobre corrupção em Moçambique – sugerindo que se trata de uma narrativa fabricada para o incriminar. “É uma narrativa que foi montada para criar um problema”, afirma, acusando sectores do Estado de terem elaborado uma acusação sem fundamento sólido.
O antigo director do SISE mantém que nunca foi corrupto e que a sua prisão resulta de ter denunciado esquemas de alto nível. “É simples. Se eu tiver um projecto ou sistema torna-se predominante. Para além de uma resposta, as pessoas têm de se preparar prospectivamente. Houve prejuízo intelectual por não se ter deixado essa actividade prosseguir”, argumenta.
As declarações de António Carlos do Rosário lançam nova luz sobre os escândalos de corrupção e instabilidade política que têm marcado Moçambique nos últimos anos, embora permaneçam por confirmar de forma independente muitas das suas acusações.
Imagem: DR