O antigo presidente do Conselho Constitucional, Hermenegildo Gamito, quebrou o silêncio sobre os bastidores da sua passagem pela liderança da máxima instância de justiça eleitoral em Moçambique. Numa entrevista reveladora concedida à MBC, o veterano magistrado e figura de proa do partido no poder detalhou episódios de tensão directa com o antigo Chefe de Estado, Filipe Nyusi.
As revelações apontam para um cenário de forte pressão política vinda da Presidência da República, num período em que o Conselho Constitucional era chamado a validar processos eleitorais decisivos. Gamito recordou momentos em que foi questionado sobre a sua lealdade partidária face às decisões técnicas e jurídicas do órgão que dirigia, sublinhando que a sua postura de independência gerou um visível mal-estar com o antigo Presidente Nyusi.
De acordo com o depoimento de Gamito, o Chefe de Estado terá chegado a questionar a amizade entre ambos após decisões que não favoreciam os interesses políticos imediatos do partido Frelimo. O antigo presidente do CC afirmou ter respondido na altura que, embora fosse membro do partido e amigo do Presidente, no exercício das suas funções era “escravo da lei”.
Este braço de ferro institucional criou constrangimentos que perduraram, com Gamito a sentir que o seu contributo para a estabilidade e o desenvolvimento do país não foi devidamente valorizado pela actual governação. Para o magistrado, a independência das instituições é o único caminho para evitar que a democracia moçambicana seja apenas de fachada.
Para além das revelações sobre as pressões sofridas, Hermenegildo Gamito abordou a actual situação política de Moçambique, defendendo uma mudança profunda na forma como o diálogo nacional é conduzido. O antigo governante acredita que a inclusão efectiva de todas as forças vivas da sociedade é o motor que falta para impulsionar o desenvolvimento do país.
Na sua óptica, o diálogo não deve ser um processo cosmético ou limitado a elites políticas, mas sim uma plataforma abrangente que garanta que todos os moçambicanos se sintam parte da solução para os desafios económicos e sociais que a nação enfrenta.